SiMuLaDoR
   Estação...

 

Olhou a lua; em meio às nuvens esparsas que teimavam em borrar o céu, ela brilhava pela metade.  Pensou – não era a tão aclamada lua cheia, que tanto inspirara os apaixonados e fôra musa de tantos outros poetas (digo outros, pois os apaixonados são os maiores poetas). Mesmo assim, sob o minguar da lua, afinou duas das cordas do violão, já cansado das toadas dedilhadas naquele dia.

Sentou-se... no chão, calçada forrada de folhas da árvore que sombreava as tardes da creche que funcionava ali ao lado.

Via, à sua frente, a antiga estação de trem da cidade... lembrou-se do café que antes funcionava ali, atendendo às necessidades da estação: o café com leite dos caixeiros viajantes, o chá bem quente tomado nos dias de frio pelos próprios funcionários, a brôa de milho pedida todo dia às 4 da tarde pela senhora que vira seus filhos deixarem a cidade rumo à capital e que os esperava voltar (sabe-se lá onde estavam; nunca mais tivera notícias... mas esperava ali, sentada em silêncio, respirando descompassada a cada trem que chegava), a dose de conhaque servida ao amante não correspondido, que nem estava ali pra tomar o trem, mas pra olhar o infinito caminho de trilhos e lembrar, sem querer, que a amava.

Deitou-se... ventre para o céu, abraçou o violão...

Durante anos a estação ficara abandonada... as estradas de rodagem tomaram tão rapidamente o lugar dos trens que somente anos depois pensou-se na restauração das paredes daquele lugar, antes embriagadas de histórias fantásticas. Olhando pra elas, sentiu-se orgulhoso por morar naquela cidade; lembrou - detrás do velho portão da antiga estação, existia hoje um espaço cultural, onde ele passara a tarde daquele domingo a apreciar telas de artistas plásticos que expunham pela primeira vez, antes de começar a ensaiar em uma outra sala, das tantas que lá haviam, seu solo de violão que agrupava músicas de compositores da cidade. Ouvira o coral de crianças arriscar suas primeiras notas, vira a chegada dos literatos para a reunião semanal da Academia de Letras local.

Dormiu... o sono merecido dos que trabalham (que me perdoem aqueles que não vêem a arte como ofício). Sonhou... que voltava a entrar pelos portões da estação e pulava da plataforma sobre os trilhos, atravessando a linha antigamente freqüentada por marias-fumaças e trens carregados de minério.

Acordou no primeiro chute; eram garotos, muito jovens os três, e traziam nas mãos uma garrafa de aguardente de má qualidade e cigarros que exalavam um cheiro estranho. Tentou levantar-se quando tomou o soco no estômago que o fez vomitar o nada que havia comido à tarde. Quando pisaram-lhe a cabeça, perdeu os sentidos, perdeu a visão.

Deixaram ao lado dele a garrafa vazia e levaram consigo o cheiro do cigarro, seus documentos, o telefone celular que ele acabara de ganhar no aniversário. Quando voltou a si, ainda confundia o breu da noite com a cegueira que agora lhe pertencia. Sem saber que nunca mais enxergaria, agradeceu pela noite cada vez mais escura, que com elegância ocultava o que não era preciso enxergar... tateou a calçada e com um suspiro de alívio encontrou o violão. Afinou a última corda e tocou, todo seu solo ensaiado, até o dia clarear. Tranquilo... ou não...



Escrito por Gruli às 17h52
[] [envie esta mensagem] []


 
  [ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]  
 
 



Meu perfil
BRASIL, Sudeste, Homem, de 26 a 35 anos

HISTÓRICO



OUTROS SITES
 Prenda-me Se Fôr Capaz
 Otávio Martins
 Mário Bortolotto
 Jú Mesquita
 Ivam Cabral
 Rodolfo Garcia Vasquez
 Fernanda Dumbra
 Cacá Toledo
 Sérgio Roveri
 Paulo de Tharso
 Alessandro "Robocop" Bartel
 Clarah Averbuck
 Patrícia Leonardelli
 Alberto Guzik
 Cléo de Páris
 Lenise Pinheiro e Nelson de Sá
 Laerte Késsimos
 Paulo Ribeiro
 Dani Tesolin
 Revista Bacante
 Chico Ribas
 Jarbas Capusso
 Rui Xavier
 Anna Cecília Junqueira
 Bárbara Oliveira
 Vanessa Morelli
 Débora Aoni
 Fábio Ock
 Érika Riedel