SiMuLaDoR
   Caos...

Detestava os plantões aos domingos... Desde criança, sempre sonhou tornar-se policial, mas nem imaginava que um dia tão tradicional e festivo (costumava almoçar junto aos familiares) pudesse se tornar apenas um desenrolar de horas maçantes. Afinal, nada acontecia aos domingos na cidade: namorados na praça defronte à sorveteria, turmas de garotos em mesas na calçada do bar mais tradicional, pouca gente observando as vitrines das boutiques fechadas. Saiu de casa bem cedo, sabendo que essa monotonia o aguardava; um beijo carinhoso na esposa, lançou a filha única aos ares, pra depois resgatá-la em segurança num abraço quente... elas passariam o dia em casa, arrumando velhos álbuns de fotos, aproveitando o resto de pão pra fazer o doce que ele mais gostava, assistindo o desenho que ele alugara no dia anterior para a filha. Sairiam somente por volta das oito horas, pra pegar o último horário de missa da paróquia do Perpétuo Socorro e voltar a tempo de preparar o jantar esperando a chegada dele.

            Da viatura, indo pro trabalho, ainda podia contemplar o sorriso delas.

            Podia-se ver pelas ruas outras pessoas que, apenas por necessidade, juntavam-se ao diminuto grupo dos trabalhadores de fim de semana. Um deles, desde criança observara seu pai no ofício de dar vida ao desenho dos arquitetos. Na frente da casa que construía (casarão da Rua Floriano Peixoto, mandado fazer por um dos donos de terra mais abastados da cidade), mexia e remexia a areia, a água e o cimento, num movimento que parecia coreografado. Assentou tijolos com a perfeição de um quadro cubista, colocou azulejos que trancaram sob eles algumas gotas de seu suor. Almoçou o ovo de gema mole e inteira que a esposa havia fritado ainda com cara de sono. Verificou a tubulação, corrigiu a infiltração. Sentiu-se honrado por ver o trabalho bem feito... foi pra casa, com a sensação mais almejada por todos: a do dever cumprido.

            Eram quase nove horas quando chegou; nem teve tempo de pensar... correu até a terceira gaveta do armário, afobado; de lá, tirou o Taurus, calibre 38, já envelhecido, carregado com as mesmas 4 balas que seu pai havia colocado lá quando comprara, há 40 anos atrás. Apontou pras costas do rapaz, que já pulava a janela do quarto, todo torto do aguardente que bebera na casa, mas não teve coragem de atirar; apontou então pra sua esposa, pensou nos anos de fidelidade dedicados a ela em vão, mas nem assim puxou o gatilho; escutou o acelerar do carro do rapaz e levantou-se, dando a impressão de que iria seguí-lo. Mas não... queria apenas entrar em seu carro e sair daquela cidade, pra nunca mais ouvir o silêncio dela na hora da conversa, não mais as noites de amor negadas, não mais sua boca, que não se abrira numa palavra desde o flagrante.

            Entrou ainda confuso no carro, tremendo, tentando enxergar a rua à sua frente... andou tão devagar que, no terceiro quarteirão, uma viatura o parou perguntando se o carro tinha algum problema. Nenhuma resposta; parado, seu olhar não conseguia focar além de suas pálpebras. Viram o revólver, jogado no banco de trás... rapidamente, abriram a porta do carro, jogaram-no no chão, travaram a algema. No banco de trás da viatura, ainda nenhum pensamento; no banco da frente, o policial sonhava o fim daquele dia, sonhava o quintal de casa, sonhava a canção de ninar da filha.

            Do outro lado da cidade, o amante fugido da casa do humilde pedreiro, dirigindo embriagado que estava e aflito por ter quase perdido a vida, perde o controle do carro e atinge um ponto de ônibus próximo a uma igreja, matando uma mulher e uma criança. Aquele policial não mais cantaria pra sua filha dormir, não mais os beijos apaixonados de sua mulher, não mais os domingos tradicionais em família. Tudo acabou na segunda-feira, quando rezou o último terço e depositou a derradeira rosa pra elas. Inocente de tudo... ou não...



Escrito por Gruli às 12h24
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