SiMuLaDoR
   Amnésia...

Embriagou-se de seu perfume, que pairava nos cantos, cômodos, corredores da casa. Anos de casamento e aquele ainda era o aroma que mais lhe agradava. Olhou-a pelo espelho; arrumava cuidadosamente cada detalhe, os mais simples... o batom que ultrapassava a curva do lábio numa leve pincelada, os fios de cabelo em sua miscelânea de tons, os brincos que apareciam somente o necessário para serem lembrados. Era apaixonado por cada gesto dela; cada pequeno músculo que se movesse involuntariamente em seu rosto, ele percebia. Mas sabia que ela já não estava mais ali...

Saiu do banheiro sem cruzar o olhar com o dele. Pegou colar, bolsa, deixou o vazio no espaço pelo qual passava até descer as escadas. As chaves do carro, entrou. Esperou...

Ele entrou, mesmo prevendo o silêncio que iria acompanhá-los até a chegada à festa. Um casal amigo comemorava suas bodas de prata. Chegaram; na porta, encostaram os braços, gesto limite, a tentativa dela de parecerem felizes aos olhos dos outros. Ele realmente estava! Lembrava-se de seus primeiros bailes juntos, quando ainda tocavam as mãos com pudor. Sua pele encostada na dela nas tardes de piquenique, nas mesas de bar entre amigos quando não viam a hora de se fechar em casa; a sós, tocavam-se devagar e cada poro abria-se metros, quilômetros, e o suor melado que escorria juntava-os em um só. E sentia sozinho aquela sensação voltar, agora, no leve toque de seu braço, contemplando a idéia de que ela estava ali e que cada momento que a tocava parecia único, parecia esvair-se no tempo sem volta.

Entrou na festa sem esboçar um sorriso. Cumprimentou suas amigas, enquanto ele pegava dois copos de champanhe. Trouxe pra ela, que preferiu não beber. Sentou-se, sem chamá-lo pra junto dela. Já não o amava; teria dito há mais tempo não fossem as repetidas declarações de amor, as rosas e os lírios que teimavam em perfumar a casa trazidos pelas mãos dele. Não mais suportava cada carta escrita, cada verso de amor rabiscado em guardanapos que ocupavam toda uma gaveta do armário. Não queria nem mais uma palavra, nem um suspiro dele. E desesperou-se quando não ouviu nada...

Voltavam, chovia. Acelerava, tensa. Ele colocou a velha fita cassete que misturava Sinatra no lado A e Piazzolla no B. Num súbito, confessou ter um amante. Silêncio dele; já sabia... seu peito arfava, não o amava mais e disse. O silêncio era o mesmo, o ar não se movia dentro do carro... acelerou; suava, suas mãos tremiam a cada pulsar do coração, como se o sangue quisesse sair de suas veias e afogá-lo. Esperava que ele derramasse uma só lágrima, que implorasse uma única vez... mas não, nada! Gritou com ele, chorou, acelerou... ele aguardava aquele instante, amava tanto que havia se preparado. Queria ficar em silêncio pra escutar talvez as últimas palavras da boca dela enquanto ainda estavam juntos. Não percebeu quando ela desmaiou; viu o carro estacionado se aproximar, mas não reagiu. Girou no ar, bateu no asfalto, girou na rua, foi jogado pra fora do carro. Ainda em silêncio, alguns arranhões, levantou-se e certificou-se que ela estava bem. Aos policiais que surgiram, dizia terem tentado desviar de um bêbado que fazia manobras bruscas na rua.

Foi tirada das ferragens ainda inconsciente, algumas lesões leves. Da boca do médico, veio a saúde estável, a pancada, a amnésia, o milagre.

Ele contaria a ela toda a história de amor vivida, recriando tudo, os mínimos detalhes. Não temia que ela se cansasse novamente. Seria incapaz de contar outra história: só sabia ser rosas e versos. Mas sabia que ela estaria ali, ao seu lado, até que a história chegasse àquele ponto em que pararam... sabia que a narrativa se encerraria e ela decidiria então por quais terras navegar, caminhar por quais mares. Mas enquanto contava, sentia novamente cada toque, sensação, respiração; como se novamente a tocasse, a sentisse, a respirasse...



Escrito por Gruli às 14h02
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