SiMuLaDoR
   A SANTA CEIA

 

Quando a vi saindo toda esfumaçante do metrô, foi amor à primeira vista. Batom vermelho nos lábios, suíngue de passista nos quadris. Era linda, toda linda ela. Os olhos escuros de noite se cobrir de inveja. As curvas do busto delineadas e tão gostosas quanto descer a serra no fim do feriado. Ela saiu em direção ao centro, colocou os óculos escuros. Eu observava de longe, sonhando simplesmente encostar devagar naquela pele macia de pêssego novo. Parou na banca de revistas, parei do lado. Percorri as principais manchetes, sem interesse.

- Só tem tragédia hoje em dia, né? - falei.

- Não sei, não olho mais. Agora só pego as de fofoca - falou mostrando uma capa que trazia um provável ex-participante de reality show.

- Você tem cara de modelo. Topa um café?

Sem nenhum esforço, meia hora depois estávamos em minha casa. Do café no boteco, passamos facilmente à cerveja e logo adentrávamos à etapa dos destilados. Mais tranquilo ainda foi tirar como um bicho ansioso toda a roupa dela e deitá-la ali mesmo no chão da sala, como se aquele fosse o prazer derradeiro, como se nosso tesão fosse aquele gole de água gelada que se bebe nas noites de ressaca. Como se fosse nossa última noite juntos... e era!

Ali mesmo, depois de tudo, ela adormeceu. Devagar, levantei e arrumei tudo. Quase num mesmo movimento, passei a fita na boca, pra que não gritasse, e amarrei as mãos por trás, nas costas. Depois, os pés. Levei-a pro quarto, fechei a porta e terminei de amarrá-la, agora completamente imobilizada na cama. Acendi algumas velas e incensos, pra que tudo parece o mínimo ritualístico, que disso não tinha nada. Como sempre, comecei com pequenos cortes superficiais na pele, deixando escorrer lentamente o sangue que saía de vasos menores. Lambi. Depois, arranquei lascas da orelha e dos dedos, me deliciando como petiscos de um banquete. Pouco a pouco, pra que ela não perdesse a consciência, cortei partes dos seios, das coxas, dos glúteos. Não desperdicei nada, tudo que tirava, comia. Depois, apunhalei o coração. Ela não precisava e nem conseguiria me ver enquanto eu me fartava de seus orgãos internos. Ali mesmo, devorei partes do fígado, até do estômago. Com uma faca mais afiada, arranquei toda a pele do rosto e chupei o pouco de carne que tinha. Estava saciado. O que sobrou, coloquei dentro de pequenos sacos plásticos no freezer, pra outras oportunidades. Os ossos eu jogarei, amanhã, dentro de qualquer caçamba pela cidade.

Naquela noite, ele deitou a cabeça quieto no travesseiro. Estava exausto. Era de uma felicidade incontida. Muito religioso, fez o sinal da cruz, rezou o Pai Nosso e dormiu. Era o último dia de carnaval. No dia seguinte, quarta feira de cinzas, começava a quarentena. Nada de comer carne. Agora, teria de esperar passar a Páscoa.



Escrito por Gruli às 02h59
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