SiMuLaDoR
   Abatedouro

 

Baseado na história real de Chico Diabo, herói da Guerra do Paraguai.

Toda a família estava em festa.

Francisco sempre tivera uma vida cheia de dificuldades. Desde criança, já começara a trabalhar na roça, nas terras de Coronel Dantino, onde seu pai, Seu Bartolomeu, era caseiro quase escravizado desde que se conhecia por gente. Ganhavam o suficiente pra comprar a comida do mês na venda que pertencia ao próprio coronel. Nunca tinha saído daquelas terras, assim como seu pai e a família inteira. Sonhava em conhecer o mundo, mesmo sem nunca ter visto um mapa mundi.

Nesse dia, chegara a notícia: o filho Francisco conseguira um bom emprego na cidade. Era a chance de pelo menos um membro da família fazer carreira. Reuniram-se todos e fizeram um grande almoço, gastando ao menos metade das provisões para todo o mês. Afinal, aquilo merecia ser festejado.

Francisco arrumou suas malas e, com apenas 15 anos, rumou pra cidade grande. Parou um pouco antes de chegar: seu novo emprego ficava nos arredores, uma carniçaria de propriedade de um italiano novo rico, que fedia tanto ou mais que as instalações que comandava. Francisco alojou-se num quartinho pequeno em que dormiriam ao menos mais 4 moleques e já foi colocado na lida, assim que chegou.

No final da noite, estava esgotado. Era muita carne, muito sangue que jorrava, muito cheiro de podre, muitas horas de trabalho. Tinha ficado com uma faca na mão durante mais de 14 horas seguidas, despelando pedaços inteiros de boi que chegavam em gigantescos ganchos que quase arrastavam a carne pelo chão. Dormiu pesado o menino.

No dia seguinte, foi acordado pela maldita sirene, tendo dormido menos de 5 horas. Descobriu que o patrão não fornecia o café da manhã pra ninguém e começou a trabalhar imediatamente, como ordenou seu superior. Ali, faca na mão, não percebeu que um cachorro entrara da porta da rua, esfomeado vira lata, que comia pedaços de carne jogados no chão. O italiano passara justamente nessa hora, fiscalizando o chiqueiro de que era proprietário, e imediatamente culpou Francisco pela entrada do animal. Tirou o cinto e deu com tanta força no lombo do menino, repetidas vezes, que seu sangue começou a se misturar com o da carne bovina. Mas Francisco, cheiro de sangue na cor dos olhos, avançou no patrão e cortou pedaços assim como se acostumara a fazer no dia anterior com os bois.

Guardou a faca na cintura e correu. Todos gritavam: "Demônio! Demônio!"

E o menino corria. Correu. Correu. Até sair da cidade. Chegou à casa dos pais todo encharcado de sangue, dizendo que era dos bois. Pediu só pra tomar um banho, em silêncio, e disse que partiria no dia seguinte. Não explicou mais nada.

Dormiu tranquilo. No dia seguinte, novamente de malas feitas, Francisco já se despedia dos pais quando escutou cornetas ao longe. Tremeu. Imaginou os anos de cadeia por ter matado o patrão. Mas a farda não era policial: era o exército, marchando em ritmo forte. Perguntou:

- Pra onde vão?

- O país declarou guerra. Vamos pra fronteira.

A fronteira ficava a uns 100 quilômetros dali.

- Posso ir com vocês?

- Quanto mais gente, melhor. Qual teu nome?

- Chico...

- Mas Chico não é nome de soldado, garoto!

- Chico Demônio!

- Melhor assim...

E lá se foi o menino.

A guerra durou 5 anos. Nesse tempo, Chico cavara trincheiras, dormira debaixo de chuva, comera raízes quando da falta de alimento. Mas galgara posições entre seus companheiros, tendo chegado a ser promovido a cabo. E a guerra já chegava ao seu fim. O ditador do país vizinho, General Carlos Dorrente, acuado e sem forças pra lutar, conduzia seu último pelotão numa batalha suicida, já que o exército ao qual pertencia Chico tinha um contingente maior de homens. A ordem era: capturar o General Torrente, que não deveria ser morto em nenhuma hipótese.

O encontro dos exércitos despertou em Chico uma velha lembrança: o sangue que jorrava dos soldados, os pedaços de carne, de braços cortados, pernas estouradas, lembrou-lhe seu velho emprego de apenas um dia na carniçaria. Sua cabeça doía, quando avistou com tanta proximidade o General Dorrente. Tirou da cintura uma faca, a mesma que carregara consigo desde que matara o maldito italiano e que ele mesmo gravara suas iniciais "C.D." - de Chico Demônio, e avançou pra cima do general arrancando-lhe primeiramente o olho e depois, destrinchando-o como aprendera com os bois.

A guerra havia acabado. Chico Demônio já era um homem de 20 anos, com aparência de 30, por conta da guerra. Mesmo tendo contrariado as ordens de seus superiores e matado o general, voltava com honrarias de herói pra seu país. Na cidade natal, ninguém mais o reconhecia como o garoto demônio assassino do italiano dono da carniçaria, mas sim como Chico Demônio, o grande soldado.

Diante do presidente da República, Chico Demônio aparece pela primeira vez diante das câmeras de televisão de todo o país, no cerimonial realizado no museu da capital. Chico estava doando naquela solenidade a faca com que ele matara o general, roubada da cintura do próprio, como todos podiam ver pelas iniciais: "C.D." - Carlos Dorrente.

Morreu pobre, esquecido, afogado com o cheiro de sangue que ainda trazia nos olhos...

 



Escrito por Gruli às 02h57
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