SiMuLaDoR
  


Escrito por Gruli às 15h19
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Blog desatualizado temporariamente.

Motivo: projetos, adaptações de texto, espetáculos, eventos, ensaios e produção de balada semanal, todos os domingos, que estréia dia 02 de março agora!!! Aguardem...

Volto logo a escrever...



Escrito por Gruli às 23h33
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   Abatedouro

 

Baseado na história real de Chico Diabo, herói da Guerra do Paraguai.

Toda a família estava em festa.

Francisco sempre tivera uma vida cheia de dificuldades. Desde criança, já começara a trabalhar na roça, nas terras de Coronel Dantino, onde seu pai, Seu Bartolomeu, era caseiro quase escravizado desde que se conhecia por gente. Ganhavam o suficiente pra comprar a comida do mês na venda que pertencia ao próprio coronel. Nunca tinha saído daquelas terras, assim como seu pai e a família inteira. Sonhava em conhecer o mundo, mesmo sem nunca ter visto um mapa mundi.

Nesse dia, chegara a notícia: o filho Francisco conseguira um bom emprego na cidade. Era a chance de pelo menos um membro da família fazer carreira. Reuniram-se todos e fizeram um grande almoço, gastando ao menos metade das provisões para todo o mês. Afinal, aquilo merecia ser festejado.

Francisco arrumou suas malas e, com apenas 15 anos, rumou pra cidade grande. Parou um pouco antes de chegar: seu novo emprego ficava nos arredores, uma carniçaria de propriedade de um italiano novo rico, que fedia tanto ou mais que as instalações que comandava. Francisco alojou-se num quartinho pequeno em que dormiriam ao menos mais 4 moleques e já foi colocado na lida, assim que chegou.

No final da noite, estava esgotado. Era muita carne, muito sangue que jorrava, muito cheiro de podre, muitas horas de trabalho. Tinha ficado com uma faca na mão durante mais de 14 horas seguidas, despelando pedaços inteiros de boi que chegavam em gigantescos ganchos que quase arrastavam a carne pelo chão. Dormiu pesado o menino.

No dia seguinte, foi acordado pela maldita sirene, tendo dormido menos de 5 horas. Descobriu que o patrão não fornecia o café da manhã pra ninguém e começou a trabalhar imediatamente, como ordenou seu superior. Ali, faca na mão, não percebeu que um cachorro entrara da porta da rua, esfomeado vira lata, que comia pedaços de carne jogados no chão. O italiano passara justamente nessa hora, fiscalizando o chiqueiro de que era proprietário, e imediatamente culpou Francisco pela entrada do animal. Tirou o cinto e deu com tanta força no lombo do menino, repetidas vezes, que seu sangue começou a se misturar com o da carne bovina. Mas Francisco, cheiro de sangue na cor dos olhos, avançou no patrão e cortou pedaços assim como se acostumara a fazer no dia anterior com os bois.

Guardou a faca na cintura e correu. Todos gritavam: "Demônio! Demônio!"

E o menino corria. Correu. Correu. Até sair da cidade. Chegou à casa dos pais todo encharcado de sangue, dizendo que era dos bois. Pediu só pra tomar um banho, em silêncio, e disse que partiria no dia seguinte. Não explicou mais nada.

Dormiu tranquilo. No dia seguinte, novamente de malas feitas, Francisco já se despedia dos pais quando escutou cornetas ao longe. Tremeu. Imaginou os anos de cadeia por ter matado o patrão. Mas a farda não era policial: era o exército, marchando em ritmo forte. Perguntou:

- Pra onde vão?

- O país declarou guerra. Vamos pra fronteira.

A fronteira ficava a uns 100 quilômetros dali.

- Posso ir com vocês?

- Quanto mais gente, melhor. Qual teu nome?

- Chico...

- Mas Chico não é nome de soldado, garoto!

- Chico Demônio!

- Melhor assim...

E lá se foi o menino.

A guerra durou 5 anos. Nesse tempo, Chico cavara trincheiras, dormira debaixo de chuva, comera raízes quando da falta de alimento. Mas galgara posições entre seus companheiros, tendo chegado a ser promovido a cabo. E a guerra já chegava ao seu fim. O ditador do país vizinho, General Carlos Dorrente, acuado e sem forças pra lutar, conduzia seu último pelotão numa batalha suicida, já que o exército ao qual pertencia Chico tinha um contingente maior de homens. A ordem era: capturar o General Torrente, que não deveria ser morto em nenhuma hipótese.

O encontro dos exércitos despertou em Chico uma velha lembrança: o sangue que jorrava dos soldados, os pedaços de carne, de braços cortados, pernas estouradas, lembrou-lhe seu velho emprego de apenas um dia na carniçaria. Sua cabeça doía, quando avistou com tanta proximidade o General Dorrente. Tirou da cintura uma faca, a mesma que carregara consigo desde que matara o maldito italiano e que ele mesmo gravara suas iniciais "C.D." - de Chico Demônio, e avançou pra cima do general arrancando-lhe primeiramente o olho e depois, destrinchando-o como aprendera com os bois.

A guerra havia acabado. Chico Demônio já era um homem de 20 anos, com aparência de 30, por conta da guerra. Mesmo tendo contrariado as ordens de seus superiores e matado o general, voltava com honrarias de herói pra seu país. Na cidade natal, ninguém mais o reconhecia como o garoto demônio assassino do italiano dono da carniçaria, mas sim como Chico Demônio, o grande soldado.

Diante do presidente da República, Chico Demônio aparece pela primeira vez diante das câmeras de televisão de todo o país, no cerimonial realizado no museu da capital. Chico estava doando naquela solenidade a faca com que ele matara o general, roubada da cintura do próprio, como todos podiam ver pelas iniciais: "C.D." - Carlos Dorrente.

Morreu pobre, esquecido, afogado com o cheiro de sangue que ainda trazia nos olhos...

 



Escrito por Gruli às 02h57
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   A SANTA CEIA

 

Quando a vi saindo toda esfumaçante do metrô, foi amor à primeira vista. Batom vermelho nos lábios, suíngue de passista nos quadris. Era linda, toda linda ela. Os olhos escuros de noite se cobrir de inveja. As curvas do busto delineadas e tão gostosas quanto descer a serra no fim do feriado. Ela saiu em direção ao centro, colocou os óculos escuros. Eu observava de longe, sonhando simplesmente encostar devagar naquela pele macia de pêssego novo. Parou na banca de revistas, parei do lado. Percorri as principais manchetes, sem interesse.

- Só tem tragédia hoje em dia, né? - falei.

- Não sei, não olho mais. Agora só pego as de fofoca - falou mostrando uma capa que trazia um provável ex-participante de reality show.

- Você tem cara de modelo. Topa um café?

Sem nenhum esforço, meia hora depois estávamos em minha casa. Do café no boteco, passamos facilmente à cerveja e logo adentrávamos à etapa dos destilados. Mais tranquilo ainda foi tirar como um bicho ansioso toda a roupa dela e deitá-la ali mesmo no chão da sala, como se aquele fosse o prazer derradeiro, como se nosso tesão fosse aquele gole de água gelada que se bebe nas noites de ressaca. Como se fosse nossa última noite juntos... e era!

Ali mesmo, depois de tudo, ela adormeceu. Devagar, levantei e arrumei tudo. Quase num mesmo movimento, passei a fita na boca, pra que não gritasse, e amarrei as mãos por trás, nas costas. Depois, os pés. Levei-a pro quarto, fechei a porta e terminei de amarrá-la, agora completamente imobilizada na cama. Acendi algumas velas e incensos, pra que tudo parece o mínimo ritualístico, que disso não tinha nada. Como sempre, comecei com pequenos cortes superficiais na pele, deixando escorrer lentamente o sangue que saía de vasos menores. Lambi. Depois, arranquei lascas da orelha e dos dedos, me deliciando como petiscos de um banquete. Pouco a pouco, pra que ela não perdesse a consciência, cortei partes dos seios, das coxas, dos glúteos. Não desperdicei nada, tudo que tirava, comia. Depois, apunhalei o coração. Ela não precisava e nem conseguiria me ver enquanto eu me fartava de seus orgãos internos. Ali mesmo, devorei partes do fígado, até do estômago. Com uma faca mais afiada, arranquei toda a pele do rosto e chupei o pouco de carne que tinha. Estava saciado. O que sobrou, coloquei dentro de pequenos sacos plásticos no freezer, pra outras oportunidades. Os ossos eu jogarei, amanhã, dentro de qualquer caçamba pela cidade.

Naquela noite, ele deitou a cabeça quieto no travesseiro. Estava exausto. Era de uma felicidade incontida. Muito religioso, fez o sinal da cruz, rezou o Pai Nosso e dormiu. Era o último dia de carnaval. No dia seguinte, quarta feira de cinzas, começava a quarentena. Nada de comer carne. Agora, teria de esperar passar a Páscoa.



Escrito por Gruli às 02h59
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   Pra que dizer eu te amo...

Homem - Devo apagar a luz?

Mulher - Acha que sim?

(e assim por diante, alternadamente) - Me sinto inseguro...

- Então, apague.

- Não.

- Não o que?

- Me sinto inseguro sem ela.

- Sem ela?

- Ela... a luz!

- Ah... achei que você falava dela!

- Dela... dessa luz; não de outra.

- Que outra?

- Do que você tá falando?

- Qual é a outra?

- Nenhuma.

- Eu sou a uma e nenhuma é a outra?

- Eu tô confuso...

- Tá tudo bem.

(tempo)

- Não gosto de ficar confuso. Às vezes, sinto como que uma vontade de não estar aqui...

- Aqui? Aqui assim? Aqui comigo?

- É... aqui comigo...

- Ah... eu não! Nunca pensei num lugar diferente. Queria mesmo é que o tempo corresse um pouco mais, pra que eu não o sinta tanto... são os feriados!

- Aqui comigo; como se eu me olhasse de dentro do meu olho pra fora, sabe?

- Nos feriados é que você percebe que o tempo está passando... vê o carnaval chegar e sabe que a páscoa está próxima...

- Não como se eu pudesse me olhar de fora, mas me olhar de dentro olhando pra fora...

- Tem um momento que entramos num limbo, em que não percebemos mais o ano passando... mas quando vemos os enfeites de Natal nas ruas, dizemos logo "como passou"...

- E já não sei mais se quem olha sou eu ou esse outro que olha por mim, pra você...

- E se não existissem os feriados aí sim estaríamos livres de pensar nele...

- Nele quem?

- No tempo... todos os dias do ano seriam iguais e nunca diríamos "como passou rápido"....

(tempo)

- É... passou mesmo...

(tempo)

- Passou só pra você, que disse que não me amava mais, pegou suas coisas, seu perfume, suas cuecas, sua coleção de copos de cerveja e colocou tudo na mala, saiu batendo a porta e dizendo que sentia falta de alguém que não era eu e deitou-se bêbado pelo mundo, cama após cama, até voltar aqui e pedir pra se deitar de novo nessa cama, nessa nossa cama, nesse nosso quarto, nesse meu pedaço quente de carne que te aceita como a um cheque sem fundo...

(tempo)

- Você inventou...

- É mentira...

- Eu nunca tive coleção de copos... nem mala nunca tive!

- Você me deixou...

- Eu nunca saí dessa casa.

- E por que não?

- Nem bêbado fiquei...

- Pois eu sempre quis dizer isso... sempre quis te jogar na cara que você voltou pra mim implorando...

- Nunca voltei porque não fui.

- E fico aqui sem saber se você voltaria ou não.

(tempo)

- Eu voltaria?

- Você nunca teve coragem de ir; também não teria de voltar.

(tempo)

- Tomou os seus remédios?

- Hoje não.

- Mas eles são diários.

- Me fazem mal.

- Mas tudo que é diário tem que ser administrado dentro das 24 horas em que está correspondido...

- Me fazem mal, minha vista embaça, tenho tonturas.

- Senão, deixa de ser diário e sai de qualquer classificação.

- Aí a náusea, aí o vômito.

- Não me lembro de uma palavra que defina uma rotina de 48 horas... ou você pensa em 24 horas e diz "diário" ou no mínimo pensa em 168 horas e diz "semanal".

- Cala essa boca!

- E se deixamos passar o momento certo, o diário não é mais diário e a rotina se perde.

- Eu nunca estive doente!

- E aí não sabemos mais o que fazer... (tempo) Então por que toma os remédios?

- Já não me lembro... faz tanto tempo!

- Devia continuar a tomá-los, se não lembra... podem ser importantes.

- Você acha?

- Se não achasse não teria dito que achava.

- Não... não é isso... você acha que voltaria se fosse embora?

(tempo)

- Eu sempre esperei que você me mandasse embora... você diria que eu nunca te entendi, que não te aceitei como você era, que era mentira quando eu dizia que te amava. Colocaria os meus DVDs, o meu videogame, tudo num saco plástico de supermercado e deixaria próximo da porta, pra que eu não tivesse outra saída que não a saída. E um dia me ligaria implorando que eu voltasse, que eu me deitasse aqui de novo, nessa cama, nessa nossa cama, nesse pedaço quente de carne que teria esfriado sem o gosto da minha língua...

(tempo)

- Eu me lembro de tê-lo mandado embora várias vezes.

- Acho que o que eu gosto mesmo é de ficar aqui, deitado.

- Porque você nunca me aceitou como eu era.

- Eu só não entendo por que é que temos vários travesseiros...

- E suas coisas sempre estiveram arrumadas no saco plástico perto da porta.

- Se usamos só um travesseiro pra dormir... e no dia seguinte, a mesma coisa de arrumar os travesseiros todos na cabeceira da cama, depois do lençol, do edredom e da mantinha de pêlos...

- E você nunca se foi, como eu queria. Quis tanto que você fosse embora, de verdade, um dia.

- Os marrons antes, depois os brancos, todos na diagonal, nunca deitados...

- E eu sempre pensei se te ligaria assim que sentisse sua falta, se sentisse.

- Por favor, preste atenção...

- Se a cama ficaria fria... sei lá.

- Eu só tô falando dos travesseiros, que não deveriam estar ali...

- Que nem você...

- Não deveria estar?

- Que nem você poderia...

- Nem eu? Nem eu o que?

- Que nem você poderia entender o motivo dos travesseiros estarem aí... sempre arrumados!

- Mas se só nós dois entramos nesse quarto! Pra que arrumá-los tanto, todos os dias?

- Pra você.... só!

- Mas eu nunca te pedi isso.

- Assim como nunca foi embora, como nunca me pediu pra parar com os remédios... só me perguntou se já os tinha tomado... como se essa rotina fosse o que nos restou, como se essa saída fosse a única saída... e agora me pede pra deixar de arrumar os travesseiros, como se todos esses anos arrumando-os tivessem sido em vão. E eu só os arrumava pra que você os visse, só você e ninguém mais... e não me importava que ninguém entrasse aqui pra ver a nossa decoração; se você os visse assim, arrumados, como toda a cama, só pra você se deitar.

(tempo)

- O que importa mesmo é deixar que o tempo resolva as coisas. Amanhã começa o carnaval e aí sim o ano começa pra valer.

- É... e logo depois a Páscoa, o almoço na casa de sua mãe.

- Acho que esse ano não... temos muito o que fazer aqui, melhor nem sair pra não perder tempo demais. Tenho a impressão de que eu precisava de mais horas no dia pra dar conta de tudo.

- Como se pudéssemos ser dois e não um?

- Como se pudéssemos ser dois e não um... é!

- Eu te amo.

- Eu também te amo.

- E por que diz tanto?

- Digo?

- Diz... e é muito!

- Não deveria dizer que te amo tanto?

- O melhor mesmo é não escutar e sentir a falta...

- Mas e se eu engasgar aqui por dentro, de tanto segurar as palavras?

- Mas e se eu me cansar de escutar tanto essa ladainha de amor da tua boca?

- As palavras não se aguentam de ficar na garganta... começam a buzinar enlouquecidas se vêem se formar um engarrafamento ali... querem sair, querem chegar logo lá fora, querem nascer como se esse fosse um mundo bom pra elas.

- E se eu me cansar? Não quero mais seu eu te amo.

- Mas eu não posso deixar de dizer.

- Por favor, vá embora...

- Eu te amo tanto.

- É como se eu ligasse a banheira e a água fosse subindo aos poucos, quente, no inverno. Eu tremendo de frio, nua, e aos poucos ela me tocasse e me protegesse. Mas a banheira era mais alta do que eu. E a água não parava de subir... e de esquentar. E me queimava, me afogava. E eu ali morta pela mesma água quente que agradeci por me aquecer quando precisei. Mas ela não precisava ser tão quente, nem tanta...

- Te amo tanto que não me canso de dizer isso... poderia passar horas dizendo que te amo. Na esperança de que um dia pudesse ser real, que nós dois acreditássemos que ao menos um de todos esses eu te amos ditos durante anos teria sido de verdade! E eu continuava dizendo eu te amo... como um apostador de loteria, que em seus cálculos percebe que quanto mais jogos fizer, maior será a chance de ganhar! Aí arrisquei muitos jogos, na intenção de que em uma dessas apostas você acreditasse que o meu eu te amo era de verdade.

(tempo)

- Já é noite?

- Já era.

- Ahn?

- Já era noite há algum tempo atrás.

- Você está com seu relógio aí?

- Aham...

- Costuma dormir com ele?

- Aham...

- Como é que eu nunca percebi isso?

- Talvez nunca tenha olhado pro meu pulso, só isso.

- E você vê as horas enquanto dorme?

- O quê?

- Se está dormindo, não vê as horas...

- Não.

- Então por que dorme com ele?

- Por causa do despertador.

- Mas eu sempre acordei antes de você... e vinha te chamar quando dava sua hora de acordar.

- Mas o relógio tem despertador... e um dia eu poderia precisar; aí ele já estaria aqui, no pulso.

- Mas eu sempre te chamei na hora certa.

- E quando você não estiver mais aqui?

- Não sei... o quê?

- Eu posso acordar sozinho, com o despertador. E ele é à prova d'água. Caso algum dia chova lá fora. E eu precise sair...

(tempo)

- Ouviu alguma coisa?

- Na sala.

- Na porta. A campainha.

- A essa hora?

- O porteiro não avisou. Chama a polícia.

- Deixei meu telefone na sala.

- Por quê?

- Costumo deixar lá, diariamente.

- O meu também. Devia trazer o seu pro quarto, se o meu fica na sala.

- Shiu... fale mais baixo... ele pode querer entrar...

- Ele quem?

- Não sei, seja quem fôr que estiver na porta.

- Mas nós estamos no décimo quinto andar e o porteiro não avisou que ninguém subiria.

- E você se acha segura, né? Eu te avisei... você sempre insistindo em morar em apartamento. Eu sabia que isso iria acontecer.

- Ele pode entrar, se quiser... não costumamos trancar a porta... esse prédio sempre foi seguro.

- E você dizia: "tem porteiro 24 horas, é muito mais seguro"...

- Será que vai entrar e pegar as jóias?

- Mas eu sabia... o porteiro não tem controle do que acontece nos andares. O cara pode simplesmente sair do apartamento dele e ir até um outro, em outro andar, ou no mesmo, sem que alguém avisasse que ele bateria ali.

- Ou vai pegar os porta-retratos?

- E aí o sujeito vem e toca a sua campainha. E você lá dentro do seu pequeno espaço que tem direito pra viver, sem que ninguém o perturbe se você não der a autorização pelo interfone.

- Tocou de novo... escutou? Vai entrar e roubar os porta-retratos todos... e eu que não tenho cópia de nenhuma foto! As fotos que tiramos na cozinha, fazendo brigadeiro, eu toda suja de chocolate...

- E você se treme todo de medo, por não ter sido avisado com antecedência de que sua campainha iria tocar.

- As fotos do seu aniversário, em que bebemos até tarde da noite e dormimos ali mesmo na sala...

- É como se fosse o conforto de um dom premonitório: o interfone te dá a certeza do que vai acontecer no futuro, pra você resolver se quer ou não.

- As fotos de quando compramos a cama novinha, king size...

- Você pode escolher o seu próprio destino: se não quiser ver a pessoa, manda o porteiro dizer simplesmente que você não está. Ou pode optar por dizer que a pessoa não deve subir, que é você quem vai descer. Ou escolhe autorizar a entrada... e aí tem alguns minutos, dependendo da demora do elevador, pra fazer o que quiser; mas o que importa é que você já tem o controle sobre o futuro: alguém certamente vai tocar aquela campainha em algum momento.

- Mais uma vez, tocou... Se entrar, os meus porta-retratos na parede, na estante branca, do lado do quadro... As nossas fotos de lua de mel...

- Mas e quando o interfone não toca? Mas a campainha sim... e você não foi avisado de que ela tocaria. E tudo parece se desencaixar do que você pode controlar, como se o próprio inesperado estivesse batendo à porta... e aí vem o medo!

- Nossos 4 dias de lua de mel em Buenos Aires...

- E você se pergunta o que é que está do outro lado da porta, se o maldito porteiro não te avisou de nada? E o coração parece que vai explodir, sem saber se o que te espera do outro lado é a morte, um beijo ou simplesmente o vizinho te pedindo açúcar!

(tempo)

- Parou...

(tempo)

- Nós nunca fomos a Buenos Aires.

- Não?

- Não que eu me lembre...

- E por que temos fotos de nossa lua de mel em Buenos Aires na sala?

- Não sei... eu nunca fui a Buenos Aires.

- Nunca teve vontade?

- Eu gosto daqui.

- Eu gostaria de ter fotos de nossa lua de mel em Buenos Aires nos porta-retratos da sala... vou providenciar algumas!

- Não me lembro de termos tido uma lua de mel.

- Não me lembro... mas devemos ter tido uma! Em Buenos Aires... devemos ter tido uma sim... em Buenos Aires, com certeza

- Não me lembro de termos tido uma lua de mel... nem das fotos de Buenos Aires na sala. Vou prestar atenção amanhã pela manhã. Devem ser bonitas ainda, se eram de lua de mel... toda lua de mel ainda é bonita.

- Elas estarão lá, pela manhã... nos porta-retratos.

- Como se as pessoas precisassem se isolar, sozinhas num lugar bonito pelo mundo, pra ficar só as duas, recém casadas, aproveitando pra olhar bem um pro outro durante alguns dias, sem que outras pessoas as incomodem.

- O mais importante mesmo é guardar tudo isso em fotos, pra que nunca possamos nos esquecer de que um dia estivemos lá.

- E depois renovam a lua de mel de tempos em tempos, como se precisassem reabastecer um carro ou coisa assim.

- E eu tirava fotos suas e você tirava as minhas. Mas não me lembro de nenhuma foto de nós dois juntos não... é que um sempre precisava ficar com a máquina.

- E mostram as fotos aos amigos, como prova de que um dia estiveram juntos...

- E quando chegamos aqui mostramos as fotos pra todos os nossos amigos. E eles diziam: "que lugar lindo, parabéns"... e ficamos felizes de saber que ali, naquelas fotos, eles diziam ver a nossa felicidade estampada.

- Você está me escutando?

- Ahn?

- Você consegue me escutar?

- Claro que sim.

- O que eu acabei de dizer?

- O que eu acabei de dizer?

- Não sei...

- Como não sei?

- Não sei o que você acabou de dizer...

- Mas eu nunca te cobrei que me escutasse... tava só repetindo o que havia escutado de você. Você disse: "O que eu acabei de dizer?"... e assim que terminou de dizer, era exatamente essa frase que acabara de dizer...

- Tô confuso... Não gosto de ficar confuso. Às vezes, sinto como que uma vontade de não estar aqui.

- Já sei...

(tempo)

- Já é tarde.

- Que horas são?

- Não sei.

- Então olha no relógio.

- Ele não funciona... tá sem bateria.

(tempo)

- E por que então? É só isso o que eu te peço... que as coisas tenham um sentido... pra que eu possa continuar lúcida... de um jeito que nem sei se sou...

- Porque é o meu relógio, apesar de não funcionar. Que fica no meu pulso, apesar de não funcionar.

- Como meus travesseiros na cama, apesar de não precisarmos deles, então?

- Como meu telefone, sempre carregando na sala, sem que eu nunca tivesse precisado dele.

- Como meus porta-retratos, sempre expostos, mesmo que não queiramos lembrar de nada...

- Como nós dois aqui, sem precisarmos um do outro, mas juntos como se não existíssemos separados.

(tempo)

- Acho que vou tomar os remédios...

- Os remédios... é!

- É importante que eu os tome. Devo tomar diariamente.

- Diariamente... é!

- Pra não sair da rotina.

- Da rotina... é!

(tempo)

- Eu sinto tanta falta de você...

- É mesmo?

- Tanta falta...

- Eu me esforcei tanto pra não dizer nenhum "eu te amo" nos últimos minutos... acho que deu certo!

- Acho que sim... senti sua falta nesse tempo...

- Mas não foi fácil... tive de me segurar demais!

- Foi bom pra gente, é isso que importa...

- Eu te amo!

- Tudo bem.

(tempo)

- Devo apagar a luz?

- Acha que sim?

- Pode ser...

(tempo)

- Boa noite.

- Boa noite... acho que vou dormir com mais de um travesseiro hoje.

- Eu te amo.

- Até amanhã.



Escrito por Gruli às 04h01
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   Pras coisas inexplicáveis, que nunca o deixarão de ser...

Estava em casa, como sempre estava. Não saía. As compras da semana eram feitas por um jovem vizinho, do 21, que sempre comprava as coisinhas dela junto com sua compra. Cobrava menos, às vezes até deixava passar. Ela não gostava nem de abrir a porta; era rápida quando se abaixava pra pegar o jornal, que o porteiro já deixava na porta, de manhãzinha. Acordava cedo e passava sempre uma única xícara de café, que era pra não sobrar. Ligava o computador velho que comprara de uma amiga que morrera, só pra jogar paciência. Gostava; era muito mais fácil do que ficar embralhando toda vez, se fosse jogar com baralho de verdade. Às vezes cansava... numa dessas vezes, entrou pela primeira vez na internet, curiosa. Passeou um pouquinho pelas notícias, leu fofoca sobre celebridades, espantou-se com a velocidade com que aquilo era atualizado. Entrou em páginas dedicadas somente à terceira idade e achou interessante o que propunham: tinha vôlei, dança de salão, encontros semanais pra exaltar a si mesmos como os de "melhor" idade. Achou graça. Não queria nada daquilo, queria só manter seu apartamento de 40 metros quadrados bem limpo, assistir suas novelas preferidas enquanto fazia tricô (quase não olhava pra TV - só escutava) e jogar paciência... aliás, falava muito pouco; conversava com a mocinha da novela quando ela fazia papel de otária, dava bronca na vilã. Era quando ela ouvia a própria voz... era fraquinha, meio rouca, por falta de uso... um fiapo de voz.

Ia sempre dormir bem cedo, assim que acabava a última novela... menos naquele dia! Era o segundo intervalo quando tocou sua campainha... não podia ser o jovem vizinho do 21! Ele estava de férias havia só dois dias.. Olhou pelo olho mágico, mas a luz do corredor, automática, já havia se apagado. Abriu devagar a porta.

Ele olhou pra ela, com um sorriso imenso no rosto. Há anos tentava descobrir seu endereço. Haviam sido namoradinhos na infância, mas o tempo sempre dá um jeito de separar. Ainda a amava demais e sempre pensou nela. Tinha ficado viúvo há 4 anos, quando resolveu que gostaria de vê-la novamente. Foi atrás da família, dos ex-amigos e nada. Nem sinal de ninguém. Aí, finalmente achara numa lista telefônica antiga de São Paulo uma pessoa de nome idêntico ao dela. Foi até lá, viajou quase 4 horas, do interior. Como o interfone dela não funcionava, o porteiro deixou-o subir... um senhor nessa idade não faria mal a ninguém! E ali estava ele, prestes a dizer algo a ela depois desses anos todos. Havia ensaiado direitinho tudo que iria dizer.

Seu sorriso foi-se modificando aos poucos.

Não era ela. Sabia que não era ela.

Pegou-se parado na porta de uma estranha, que o olhava sem saber o motivo de sua presença ali. Pensou em sair sem falar nada... iria passar por louco, tarado, ela chamaria a polícia. Pensou em explicar o caso... mas acabou optando pelo caminho mais inexplicável possível...

- Não se lembra de mim?

Não entendia porque tinha feito isso. Não queria ser grosso e dizer que estava atrás do grande amor de sua vida e que não era ela! Poderia se sentir rejeitada, sei lá. Aí, falou a primeira frase que tanto havia ensaiado pra dizer à verdadeira.

Ela não o havia reconhecido; afinal, nem o conhecia. Mas sempre fora educada pra não dar esse tipo de vexame: esquecer-se de um amigo querido. Aí, mentiu também...

- Claro que me lembro. O que está fazendo aqui a essa hora? E está tão diferente.

Falou, genérica. Fiapo de voz em desuso.

Como quem não tinha mais saída, continuou ele, de modo mais inexplicável ainda, assim como são todas as coisas.

- Vim pra te ver...

- Ah, que bom! Entra, vou passar um café...

Ele entrou, sem entender seus próprios motivos. Ela perguntou da família dele, sem saber quem eram. Ele elogiou a beleza dela no passado, ao ver um porta retrato antigo em cima da estante, sem nunca ter visto aquele rosto antes. Ela perguntou o que ele estava fazendo agora, sem nem saber o que ele fazia antes. Ele queria saber se ela havia casado, se tinha filhos, sem saber nem o nome dela.

Tudo na melhor intenção: ele não queria dizer que estava ali por engano, ela se culpava por não ter se lembrado dele. E se enganaram assim, por anos e anos. Casaram-se, foram morar no interior, viajaram, dançaram noites após noites em bailes promovidos por sites de terceira idade, fizeram curso de culinária juntos, viram nascer o quinto neto dele, assistiam juntos aos filmes do Telecine Classic. Ela nunca mais jogou paciência, nem viu novela. Tinham um mundo a descobrir; não dava mais tempo.

E morreram quase juntos. Ela numa semana, ele na outra.

Mas nunca falaram sobre aquela noite: pra ela, ele a conhecia. Pra ele, ela não precisava saber que não!



Escrito por Gruli às 03h49
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   De repente...

Seu Alfredo viu Ednei e Ednaldo crescerem. Era porteiro lá da escola da comunidade e cuidava sempre que os meninos chegassem e saíssem em paz do colégio. Ao chegarem, bem cedo, tomavam a benção das mãos duras do velho; que já fazia um afago gostoso de avô e lhes indicava a cozinha, onde a merendeira distribuía os leitinhos de soja, mandados pelo Estado, naqueles saquinhos que se rasgava com os dentes mesmo. Cada dia de uma cor, verde, azul, vermelho, amarelo, que eles nunca sabiam de que gosto era. Na saída, Seu Alfredo cuidava que tomassem direito o caminho de casa, ao invés de ficarem de conversa fiada com gente mais velha que já andava por ali tentando vender todo tipo de coisa pra fumar, cheirar ou injetar. Uma vez por mês, gostava de ir à casa dos meninos, num sábado, pra tomar café com seu Ednan, pai deles, e experimentar mais uma vez o bolinho de chuva da cumadre, que os fazia mesmo que não chovesse. Conferia se Ednei tinha feito a lição pra segunda, menino mais desajuizado; o outro tinha tudo pronto já na sexta, sempre. Ednaldo tinha as melhores notas da classe e sonhava ser porteiro de escola quando crescesse, pra ser igualzinho ao padrinho que tanto amava. E Seu Alfredo dizia a ele que ele seria um ótimo porteiro, mas que deveria sonhar com a medicina, que o levaria tão longe na vida. Já Ednei nem pensava em nada; queria era soltar pipa, jogar bolinha de gude e bolinar as meninas da rua.

Aposentou, finalmente. Pagava a contribuição direitinho: já tinha sido assistente de pedreiro, maquinista de trem de bauxita, porteiro de escola. E nunca deixou de pagar, todo ano, a contribuição mínima. Sonhava com esse dia... levou vinte e dois anos pra construir a casinha na Comunidade do Vento Levou, favela pequena encostada no morro que mais parecia um grande pedregulho. Colocou privada com assento macio, porta de madeira maciça, azulejo com desenho bonito, azul. Tudo pra passar tranquilo seus esperados dias de aposentadoria. Seu Alfredo convidou alguns amigos próximos pro dia 31 de dezembro, que ele chamou de "reveillon da inauguração", pra mostrar os últimos detalhes da casa e ofereceu tubaína, cerveja e frango assado com arroz. Seu Ednan apareceu com a comadre, que trouxe uma travessa de bolinhos de chuva de presente, que ficou pra sobremesa dos presentes. Os meninos não apareceram, nem eram esperados. Ednaldo tinha ido jogar bola com os amigos; não gostava de reveillon e esse era o único tempo de folga entre tantas horas de estudo pro vestibular. Ednei já era o líder do tráfico na comunidade, depois de alguns anos dando duro. E não tinha mais tempo pra essas bobagens...

No meio da festa, começa o tiroteio... os tiros parecem vir subindo pela rua principal da favela. Aí, os convivas escutam o revide, o som que agora vinha do outro lado, bem de cima no morro. O anfitrião pede que todos se deitem no chão, que Deus vai fazer passar. E faz mesmo, meia hora depois. Todos se levantam calmamente, ligam a música mais baixinha e continuam brindando, acostumados com aquele tipo de intervenção. Mas aquele dia era diferente.

A polícia estava atrás de Ednaldo... e matou o menino, chefão de apenas 20 anos. No dia seguinte, primeiro dia do ano, todos estavam lá, vestidos de preto num calor de mais de 30 graus: Seu Ednan e a cumadre, Seu Alfredo, Ednaldo. Este último, dias depois, seria convocado a tomar o lugar do irmão, numa espécie de linha sucessória monárquica, pra que o comando do tráfico não fosse disputado a tiro pelos comandados de seu irmão. Negou o lugar, nunca tinha mexido com isso. Foi obrigado a aceitá-lo quando ameaçaram matar toda sua linhagem real, Seu Ednan e a cumadre.

E subiu pro posto mais alto do morro... lá, ficou sabendo que Ednei fôra caguetado por um dos moradores da comunidade, não se sabia quem. Determinou então que toda e qualquer desconfiança que recaísse sobre um morador ocasionaria a expulsão imediata deste de seus domínios. Dias depois, piorou a regra: quem não seguisse suas normas, seria expulso e/ou assassinado. Achou chique a expressão "e/ou". Aos poucos, foi ficando pior que o irmão: determinou o toque de recolher em toda a Comunidade do Vento Levou; à partir das 22 horas, ninguém podia sair mais de casa. Depois, baixou o horário pra 19 horas. Famílias que tivessem mais de dois meninos homens deveriam dar um deles como aprendiz pro grupo.

Certo dia, quando a Marilice, menina nova que nascera e queria morrer lá, foi vista entrando numa delegacia da região (havia perdido o RG), Ednaldo desceu até sua casa, pra tomar satisfações. Não contente com a coisa toda que parecia caguetagem e interessado na possibilidade da satisfação sexual, estuprou a menina. Então, o tiro na cara dela, na frente dos pais. Deu um dia pra tirarem suas coisas e mudarem de lá. Marilice era bonita e Ednaldo até pensou um dia em namorar com ela; tinha as coxas grandes e a pele macia que ele sentiu enquanto a violava. Atirou na cara pelo desgosto de ter precisado tomá-la à força; não queria a beleza dela nem no velório.

No dia seguinte, Seu Alfredo se dispôs a ajudar os vizinhos na mudança; nenhum outro morador ousou ir até lá, também jurados de despejo caso ajudassem os traidores. Dizia a eles que Ednaldo não era assim, que chamaria o afilhado pra igreja e o colocaria no caminho correto. Pedia desculpas por ele enquanto carregava a geladeira, a televisão e as coisas mais valiosas que poderiam ser tiradas naquele dia. Os pais de Marilice deixaram pra trás algumas roupas, o sofá pesado demais pra carregar, as plantas que compunham o pequeno jardim tão bem cuidado, suas histórias e a lembrança da filha. Algumas coisas no carreto foram respingadas pelas lágrimas que Seu Alfredo derramava quieto, pensando que nada daquilo fazia parte da história que ele havia traçado pra sua aposentadoria. Tinha imaginado os meninos trabalhando e chegando em sua casa pra pegar os filhos, que ele já tratava como netos. Ednaldo era formado em medicina e trabalhava no hospital público do centro, chefe dos cirurgiões. Ednei teria aberto um comércio por ali mesmo; e feliz que era com o sucesso do empreendimento que até já planejava abrir uma filial. Seu Alfredo cuidaria dos seus "netos", tomando a lição de casa, contando história, colocando a mesa pro café da tarde...

Chegou a notícia até Ednaldo: seu padrinho ajudara na mudança, desobedecera as regras, pisara na bola. Ficou em silêncio, os olhos vermelhos de raiva. Não falou nada no resto do dia. Emudeceu. Resolveu que não tomaria nenhuma atitude. Por que Alfredo teria feito aquilo? Ednaldo teria que quebrar suas próprias regras, abrir uma exceção por se tratar de uma pessoa querida. Não seria bem olhado pelos companheiros, daria uma brecha de fraqueza na imagem que criara. Engoliu a raiva a seco.

No dia seguinte, a polícia foi até o morro e bateu na casa de Seu Alfredo. Queria informações do homicídio. Seu Alfredo ofereceu café e disse que não sabia de nada. Nunca entregaria um de seus "filhos", nem sob tortura, nem com o coração apertado de desgosto. A viatura desceu o morro, acompanhada atentamente pelo binóculo de Ednaldo. Que, sem pensar duas vezes, desceu e deu 8 tiros em Seu Alfredo, cagueta do caralho, antes que ele falasse qualquer coisa.

Seu Ednan e a cumadre foram os próximos a se mudar dali. Não queriam mais notícias do filho. Semanas depois, Ednaldo instalou a sede do tráfico na casa de Seu Alfredo, que fica numa posição estratégica no morro; da janela, eles conseguem visualizar toda a rua principal. Hoje, ele se senta no assento macio da privada que o padrinho comprou, escreveu "Escritório" numa das portas de madeira maciça e mandou trocar os azulejos... não gostava dos desenhos azuis, nunca gostou...



Escrito por Gruli às 01h26
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   Pra comemorar...

O pessoal do Pavilhão 7, que esteve por lá entre 92 e 93, começou a espalhar a notícia: fariam uma churrascada pra reencontrar os irmãos de cela. Afinal, essa já era uma prática comum naquela época, por ocasião dos grandes feriados nacionais, que não são poucos. A Nézinha, mulher do Guimarães, sempre trazia uma pesada picanha na bolsa quando era dia de visita íntima. Colocavam no freezer da cozinha dos carcereiros pra esperar o feriadão. A Jennifer, que se apaixonou pelo Henriques quando ele já estava por lá, indicação de uma amiga, era a responsável sempre pelo carvão. O Hamilton, gente boa, namorado do Filé, cuidava do sal grosso. Aí rolava a sagrada vaquinha: catavam os trocados de todos e jogavam na mão do Castelão Carcereiro (sim, a função era parte do apelido) pra que ele trouxesse as cervejas só na hora de começar a festança; afinal, era sujeira ter bebida alcoólica dentro do presídio, né...

Bons tempos aqueles que eles queriam reviver... espalharam a notícia do churrasco de comemoração de 15 anos que não se viam. Fizeram um cartaz e mandaram rodar mais de 50 cópias no xerox de R$ 0,10 centavos. Espalharam nos pontos do bicho, nas associações de moradores dos bairros, nos butecos mais frequentados por ali... Mandaram até e-mail pra alguns que já haviam se adequado à coisa.

E foi grande a festa, viu... o Guimarães emprestou o sobrado, grande e com churrasqueira na laje lá de cima... e foi chegando gente. Foi lá que o Henriques e o Filé se reencontraram.

O Filé estava sozinho, viúvo... o Hamilton havia morrido em 99, complicações inexplicadas! Já o Henriques não era mais Henriques: era Rosano, travesti famoso em Ermelino Matarazzo, mais conhecido nas rodas de fofoca como Cotoco... havia sofrido um acidente em 97, quando teve um pedaço do pau arrancado pelo volante do carro! Nunca mais procurou mulher; dizem as más línguas que ele já havia matado uma família inteira por conta do apelido ofensivo.

Então cruzaram os olhares... e "Rosano" se apaixonou inexplicavelmente pelo Filé, ex-companheiro de cela! Trazia-lhe cerveja no meio da festa, passava com a bandeja de linguiça... tudo pra cruzar com ele e trocar duas palavras! No fim da festa, quando o Filé estava num papo animado sobre o último reforço do Timão com o Luano Piovano, estuprador loiro que usava lentes azuis, sentou-se junto deles pra escutar e ficou até o Luano levantar pra ir embora. Aí, Rosano viu-se sozinho com seu inédito grande amor... e se declarou. Disse que era amor; e o Filé em silêncio. Aí, silêncio dos dois... só quebrado quando o Filé insinuou que não amaria mais ninguém depois do Hamilton.

Rosano fez que entendeu e foi pra casa. Não conseguia mais dormir, tomou remédios, ligou a televisão, até pegou livro pra ler. E não aguentou: ligou pra Filé, a cobrar, do orelhão, porque não tinha a grana pro cartão. Filé não aceitou a ligação, nunca aceitava ligações a cobrar, era sua política. "Rosano", ex-Henriques, tentou de novo e a mesma negativa... mais uma vez, mais outra... e se sentiu rejeitado, negado... pensou consigo que o Filé sabia quem estava ligando e não queria atendê-lo, que não queria nem dar uma chance deles conversarem direitinho e ele poder explicar seus planos de como eles seriam felizes juntos. Henriques, depois do acidente, cultiva uma alergia à rejeição. Entra fácil em depressão e fica violento.

Entrou em casa pra pegar o casaco que fizera com o couro de alguns gatos que matara envenenados ali na vizinhança; todo mal costurado, mas bem quente pra madrugada! E saiu bufando, Ginsu 2000 na cintura, mal intencionado. Além do ônibus, andou mais uns 8 quarteirões até a casa do Filé. Lá, na porta, nem quis bater: tirou o "cotoco" pra fora e mijou na porta da casa. Quando o cachorro latiu, Filé desceu pra ver o que era. Abriu a porta e tomou mais de 25 facadas do Henriques, agora "Rosano"...

No enterro dele, a Nezinha rezou o Pai Nosso no lugar do Guimarães, que estava chorando demais pra fazê-lo. Apareceu até o Castelão Carcereiro pra dar o seu adeus, convidado depois pelo Luano Piovano pra tomar uma no buteco ao lado do cemitério, em homenagem ao amigo morto.

E o Henriques foi mandado pro interior, pra um de segurança máxima desses novos, dos federais. Mudou definitivamente pra Rosana e hoje usa seus horários de visita íntima com os próprios colegas presidiários. E encontra em cada um deles um grande amor, inédito e efusivo, capaz ainda de lhe provocar os instintos mais violentos... aí, pede pra apanhar e goza rapidinho.



Escrito por Gruli às 02h29
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   A flor...

Foi naquele dia que ele colheu a rosa e saiu de casa.

Pensou em colocá-la na lixeira do andar, que bem merecia se colorir de seu perfume. Mas não o fez. Os vizinhos não entenderiam seu protesto.

Passou pelo porteiro e achou por bem se calar e não lhe oferecer o presente, pra que não ficasse parecendo uma cantada.

Debaixo do viaduto, o cheiro dos bueiros e dos homens fez com que ele andasse pela rua. Tentou deixar na sarjeta, mas se assustou com o rato saindo do cobertor do velho.

Passou pela moça bonita e não se motivou a embelezá-la ainda mais. Porque a mulher tem que ter qualquer coisa além da beleza, qualquer coisa de triste, qualquer coisa que chora, qualquer coisa que sente saudade.

Molhado com os primeiros pingos de chuva, quis esperar a enxurrada para lançar a rosa. Mas era só uma garoa rala daquelas que te deixam preguiçoso e não te molham com competência.

Pensou em jogá-la do viaduto, mas tantas pessoas já haviam pulado dali que ele precisaria de um buquê pra homenageá-las...

Pensou no presídio, mas era longe. Pensou no cemitério, mas era noite. Pensou na igreja, mas era ateu. Pensou até na padaria, mas aquela não era 24 horas.

Voltou pra casa e enfiou com força seu caule na terra pouca do vaso. No dia seguinte, algumas pétalas cairam e pra semana nem o caule aguentou.

As rosas não podem ser replantadas...



Escrito por Gruli às 02h15
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- Olha o jornal. "Um bandido de treze anos acaba de assassinar um garotinho de nove". É horrível!

O amigo faz um gesto displicente.

- Crime sem interesse... A menos que não se dê um caso de genialidade, um homem só pode cometer um belo crime, um assassinato digno, depois dos dezesseis anos. Uma criança está sempre sujeita aos desatinos da idade. Ora, o assassinato só se torna admirável quando o assassino fica impune e realiza integralmente a sua obra. Desde Caim, nós temos na pele o gosto apavorador do assassinato. Não estejas a olhar para mim assim assustado. As mais frágeis criaturas procuram nos jornais a notícia das cenas de sangue. Não há homem que, durante um segundo ao menos, não pense em matar sem ser preso. E o assassínio é de tal forma a inutilidade necessária ao prazer imaginativo da humanidade, que ninguém se abala para ver um homem morto de morte natural, mas toda gente corre ao necrotério ou ao local do crime para admirar a cabeça degolada ou a prova inicial do crime. Dado o grau de civilização atual, civilização que tem em germe todas as decadências, o crime tende a aumentar, como aumentam os orçamentos das grandes potências, e com uma percentagem cada vez maior de impunidade.

"As crianças que matam" - Paulo Barreto - 1909



Escrito por Gruli às 01h21
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   MÃE...

Uma homenagem mais do que merecida...

Hoje faz 50 anos que nasceu a pessoa mais importante da minha vida!!!

E que batalhou demais pra que eu e minhas irmãs fossemos as pessoas de caráter que somos...

Meu eterno amor e gratidão, viu, mãe...

Você é minha base do passado, minha motivação do presente e aquela a quem sempre quero dar orgulho no futuro...

Te amo... parabéns pelos seus 50 anos...



Escrito por Gruli às 14h15
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   Nada...

 

Texto escrito há 3 anos, filosofia de buteco, perdido entre as milhões de pastas desse computador de merda que tenho.

Acrescentado apenas do "ou não" no final...

 

HOJE E AMANHÃ

 

Eu sempre achei que quanto mais idade tivesse, mais entenderia o mundo. Pensando melhor agora, parece que não! Quase chego à conclusão que quanto mais temos informações, quanto mais vivência, mais coisas a se entender! Então, a dificuldade é maior, claro... E uma das maiores questões a se resolver é a sua capacidade de se entender como membro de um conjunto, como pertencente a uma geração. Acho que estou começando a ficar velho e gostaria de entender a função, a missão, a importância da minha geração pra que a Terra continue em sua translação e rotação normais. E que se considere minha geração quem quiser, lembrando que tenho 25 anos...

Não acredito em coincidências... Um dia após o outro, assisti “Os Sonhadores”, novo filme de Bernardo Bertolucci e “Edukators”, filme alemão dirigido por Hans Weingartner.

Bertolucci mostra jovens que se embriagam de cinema na tumultuada Paris de 1968, filhos de grandes intelectuais. Consegue mostrar questões referentes ao jovem de hoje numa trama em plena revolução cultural iniciada na Cinemateca Francesa, da qual os protagonistas se alienam a maior parte do tempo.

O filme alemão é atual; mostra rapazes que invadem residências consideradas de luxo sem o intuito de roubar, mas apenas alterar os móveis de seu lugar como uma forma de “educar”. Amigos que se unem com o simples desejo de mudar o mundo, sonho que se perdera na Europa desde a primavera de 68. É aí que chego ao ponto que gostaria de entender...

Nossos pais lá estão, no filme italiano, tentando mudar alguma coisa que nem eles sabiam exatamente o que era; no tempo que sobrava, era sexo, drogas e rock’n’roll. E nós aqui estamos, no filme alemão, tentando mudar alguma coisa que nem nós sabemos exatamente o que é; no tempo que sobra, é sexo, drogas e rock’n’roll. Entendem? Risos... Pois eu não! E que fique claro que não estou chamando ninguém de alienado... só bato na tecla “como nossos pais”.

Vou tentar explicar tudo tomando por base um personagem de “Edukators”: Hardenberg, o milionário que tem que ser seqüestrado quando uma das invasões não dá certo. Ele é um dos jovens que na década de 60 lutou por uma utopia e que, trinta anos depois, já não lhe é conveniente, dada a quantidade de dinheiro que Hardenberg juntara nesses anos. A transformação total, do hippie ao rico. É aí que mora a questão: qual o tamanho da nossa consciência sobre nossos ideais de hoje? E quanto desse ideais resistirão até amanhã? Começo a acreditar que essas duas perguntas têm uma relação muito forte: que só saberemos quanto de nós é verdadeiro hoje através do quanto de nós fôr verdadeiro amanhã! E não quero com isso fazer apologia à pobreza (aliás, quero ser bem rico um dia!); apenas tentar entender porque enganamos a nós mesmos com ideais que não resistirão ao primeiro obstáculo do caminho, à primeira oferta por uma vida melhor.

E termino tudo isso com uma proposta: que possamos ser ansiosos, adiantados. Tentar desde já entender tudo que em nossa geração é realmente nosso. Tudo que podemos carregar com o passar dos anos. E se entendermos que não podemos carregar nada, que nossa geração é vazia de ideais, que tomemos providências já! Por que eu não quero dizer aos meus sobrinhos que o mundo mudou e eu não tive nada a ver com isso... ou pior: que eu tive que mudar pra acompanhar o mundo! Se eu tiver que segurar o eixo da Terra e girá-lo ao contrário, farei isso agora... ou não...

 



Escrito por Gruli às 13h49
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   Amnésia...

Embriagou-se de seu perfume, que pairava nos cantos, cômodos, corredores da casa. Anos de casamento e aquele ainda era o aroma que mais lhe agradava. Olhou-a pelo espelho; arrumava cuidadosamente cada detalhe, os mais simples... o batom que ultrapassava a curva do lábio numa leve pincelada, os fios de cabelo em sua miscelânea de tons, os brincos que apareciam somente o necessário para serem lembrados. Era apaixonado por cada gesto dela; cada pequeno músculo que se movesse involuntariamente em seu rosto, ele percebia. Mas sabia que ela já não estava mais ali...

Saiu do banheiro sem cruzar o olhar com o dele. Pegou colar, bolsa, deixou o vazio no espaço pelo qual passava até descer as escadas. As chaves do carro, entrou. Esperou...

Ele entrou, mesmo prevendo o silêncio que iria acompanhá-los até a chegada à festa. Um casal amigo comemorava suas bodas de prata. Chegaram; na porta, encostaram os braços, gesto limite, a tentativa dela de parecerem felizes aos olhos dos outros. Ele realmente estava! Lembrava-se de seus primeiros bailes juntos, quando ainda tocavam as mãos com pudor. Sua pele encostada na dela nas tardes de piquenique, nas mesas de bar entre amigos quando não viam a hora de se fechar em casa; a sós, tocavam-se devagar e cada poro abria-se metros, quilômetros, e o suor melado que escorria juntava-os em um só. E sentia sozinho aquela sensação voltar, agora, no leve toque de seu braço, contemplando a idéia de que ela estava ali e que cada momento que a tocava parecia único, parecia esvair-se no tempo sem volta.

Entrou na festa sem esboçar um sorriso. Cumprimentou suas amigas, enquanto ele pegava dois copos de champanhe. Trouxe pra ela, que preferiu não beber. Sentou-se, sem chamá-lo pra junto dela. Já não o amava; teria dito há mais tempo não fossem as repetidas declarações de amor, as rosas e os lírios que teimavam em perfumar a casa trazidos pelas mãos dele. Não mais suportava cada carta escrita, cada verso de amor rabiscado em guardanapos que ocupavam toda uma gaveta do armário. Não queria nem mais uma palavra, nem um suspiro dele. E desesperou-se quando não ouviu nada...

Voltavam, chovia. Acelerava, tensa. Ele colocou a velha fita cassete que misturava Sinatra no lado A e Piazzolla no B. Num súbito, confessou ter um amante. Silêncio dele; já sabia... seu peito arfava, não o amava mais e disse. O silêncio era o mesmo, o ar não se movia dentro do carro... acelerou; suava, suas mãos tremiam a cada pulsar do coração, como se o sangue quisesse sair de suas veias e afogá-lo. Esperava que ele derramasse uma só lágrima, que implorasse uma única vez... mas não, nada! Gritou com ele, chorou, acelerou... ele aguardava aquele instante, amava tanto que havia se preparado. Queria ficar em silêncio pra escutar talvez as últimas palavras da boca dela enquanto ainda estavam juntos. Não percebeu quando ela desmaiou; viu o carro estacionado se aproximar, mas não reagiu. Girou no ar, bateu no asfalto, girou na rua, foi jogado pra fora do carro. Ainda em silêncio, alguns arranhões, levantou-se e certificou-se que ela estava bem. Aos policiais que surgiram, dizia terem tentado desviar de um bêbado que fazia manobras bruscas na rua.

Foi tirada das ferragens ainda inconsciente, algumas lesões leves. Da boca do médico, veio a saúde estável, a pancada, a amnésia, o milagre.

Ele contaria a ela toda a história de amor vivida, recriando tudo, os mínimos detalhes. Não temia que ela se cansasse novamente. Seria incapaz de contar outra história: só sabia ser rosas e versos. Mas sabia que ela estaria ali, ao seu lado, até que a história chegasse àquele ponto em que pararam... sabia que a narrativa se encerraria e ela decidiria então por quais terras navegar, caminhar por quais mares. Mas enquanto contava, sentia novamente cada toque, sensação, respiração; como se novamente a tocasse, a sentisse, a respirasse...



Escrito por Gruli às 14h02
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   Caos...

Detestava os plantões aos domingos... Desde criança, sempre sonhou tornar-se policial, mas nem imaginava que um dia tão tradicional e festivo (costumava almoçar junto aos familiares) pudesse se tornar apenas um desenrolar de horas maçantes. Afinal, nada acontecia aos domingos na cidade: namorados na praça defronte à sorveteria, turmas de garotos em mesas na calçada do bar mais tradicional, pouca gente observando as vitrines das boutiques fechadas. Saiu de casa bem cedo, sabendo que essa monotonia o aguardava; um beijo carinhoso na esposa, lançou a filha única aos ares, pra depois resgatá-la em segurança num abraço quente... elas passariam o dia em casa, arrumando velhos álbuns de fotos, aproveitando o resto de pão pra fazer o doce que ele mais gostava, assistindo o desenho que ele alugara no dia anterior para a filha. Sairiam somente por volta das oito horas, pra pegar o último horário de missa da paróquia do Perpétuo Socorro e voltar a tempo de preparar o jantar esperando a chegada dele.

            Da viatura, indo pro trabalho, ainda podia contemplar o sorriso delas.

            Podia-se ver pelas ruas outras pessoas que, apenas por necessidade, juntavam-se ao diminuto grupo dos trabalhadores de fim de semana. Um deles, desde criança observara seu pai no ofício de dar vida ao desenho dos arquitetos. Na frente da casa que construía (casarão da Rua Floriano Peixoto, mandado fazer por um dos donos de terra mais abastados da cidade), mexia e remexia a areia, a água e o cimento, num movimento que parecia coreografado. Assentou tijolos com a perfeição de um quadro cubista, colocou azulejos que trancaram sob eles algumas gotas de seu suor. Almoçou o ovo de gema mole e inteira que a esposa havia fritado ainda com cara de sono. Verificou a tubulação, corrigiu a infiltração. Sentiu-se honrado por ver o trabalho bem feito... foi pra casa, com a sensação mais almejada por todos: a do dever cumprido.

            Eram quase nove horas quando chegou; nem teve tempo de pensar... correu até a terceira gaveta do armário, afobado; de lá, tirou o Taurus, calibre 38, já envelhecido, carregado com as mesmas 4 balas que seu pai havia colocado lá quando comprara, há 40 anos atrás. Apontou pras costas do rapaz, que já pulava a janela do quarto, todo torto do aguardente que bebera na casa, mas não teve coragem de atirar; apontou então pra sua esposa, pensou nos anos de fidelidade dedicados a ela em vão, mas nem assim puxou o gatilho; escutou o acelerar do carro do rapaz e levantou-se, dando a impressão de que iria seguí-lo. Mas não... queria apenas entrar em seu carro e sair daquela cidade, pra nunca mais ouvir o silêncio dela na hora da conversa, não mais as noites de amor negadas, não mais sua boca, que não se abrira numa palavra desde o flagrante.

            Entrou ainda confuso no carro, tremendo, tentando enxergar a rua à sua frente... andou tão devagar que, no terceiro quarteirão, uma viatura o parou perguntando se o carro tinha algum problema. Nenhuma resposta; parado, seu olhar não conseguia focar além de suas pálpebras. Viram o revólver, jogado no banco de trás... rapidamente, abriram a porta do carro, jogaram-no no chão, travaram a algema. No banco de trás da viatura, ainda nenhum pensamento; no banco da frente, o policial sonhava o fim daquele dia, sonhava o quintal de casa, sonhava a canção de ninar da filha.

            Do outro lado da cidade, o amante fugido da casa do humilde pedreiro, dirigindo embriagado que estava e aflito por ter quase perdido a vida, perde o controle do carro e atinge um ponto de ônibus próximo a uma igreja, matando uma mulher e uma criança. Aquele policial não mais cantaria pra sua filha dormir, não mais os beijos apaixonados de sua mulher, não mais os domingos tradicionais em família. Tudo acabou na segunda-feira, quando rezou o último terço e depositou a derradeira rosa pra elas. Inocente de tudo... ou não...



Escrito por Gruli às 12h24
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   Estação...

 

Olhou a lua; em meio às nuvens esparsas que teimavam em borrar o céu, ela brilhava pela metade.  Pensou – não era a tão aclamada lua cheia, que tanto inspirara os apaixonados e fôra musa de tantos outros poetas (digo outros, pois os apaixonados são os maiores poetas). Mesmo assim, sob o minguar da lua, afinou duas das cordas do violão, já cansado das toadas dedilhadas naquele dia.

Sentou-se... no chão, calçada forrada de folhas da árvore que sombreava as tardes da creche que funcionava ali ao lado.

Via, à sua frente, a antiga estação de trem da cidade... lembrou-se do café que antes funcionava ali, atendendo às necessidades da estação: o café com leite dos caixeiros viajantes, o chá bem quente tomado nos dias de frio pelos próprios funcionários, a brôa de milho pedida todo dia às 4 da tarde pela senhora que vira seus filhos deixarem a cidade rumo à capital e que os esperava voltar (sabe-se lá onde estavam; nunca mais tivera notícias... mas esperava ali, sentada em silêncio, respirando descompassada a cada trem que chegava), a dose de conhaque servida ao amante não correspondido, que nem estava ali pra tomar o trem, mas pra olhar o infinito caminho de trilhos e lembrar, sem querer, que a amava.

Deitou-se... ventre para o céu, abraçou o violão...

Durante anos a estação ficara abandonada... as estradas de rodagem tomaram tão rapidamente o lugar dos trens que somente anos depois pensou-se na restauração das paredes daquele lugar, antes embriagadas de histórias fantásticas. Olhando pra elas, sentiu-se orgulhoso por morar naquela cidade; lembrou - detrás do velho portão da antiga estação, existia hoje um espaço cultural, onde ele passara a tarde daquele domingo a apreciar telas de artistas plásticos que expunham pela primeira vez, antes de começar a ensaiar em uma outra sala, das tantas que lá haviam, seu solo de violão que agrupava músicas de compositores da cidade. Ouvira o coral de crianças arriscar suas primeiras notas, vira a chegada dos literatos para a reunião semanal da Academia de Letras local.

Dormiu... o sono merecido dos que trabalham (que me perdoem aqueles que não vêem a arte como ofício). Sonhou... que voltava a entrar pelos portões da estação e pulava da plataforma sobre os trilhos, atravessando a linha antigamente freqüentada por marias-fumaças e trens carregados de minério.

Acordou no primeiro chute; eram garotos, muito jovens os três, e traziam nas mãos uma garrafa de aguardente de má qualidade e cigarros que exalavam um cheiro estranho. Tentou levantar-se quando tomou o soco no estômago que o fez vomitar o nada que havia comido à tarde. Quando pisaram-lhe a cabeça, perdeu os sentidos, perdeu a visão.

Deixaram ao lado dele a garrafa vazia e levaram consigo o cheiro do cigarro, seus documentos, o telefone celular que ele acabara de ganhar no aniversário. Quando voltou a si, ainda confundia o breu da noite com a cegueira que agora lhe pertencia. Sem saber que nunca mais enxergaria, agradeceu pela noite cada vez mais escura, que com elegância ocultava o que não era preciso enxergar... tateou a calçada e com um suspiro de alívio encontrou o violão. Afinou a última corda e tocou, todo seu solo ensaiado, até o dia clarear. Tranquilo... ou não...



Escrito por Gruli às 17h52
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